Férias sim, filhos não



Quem é que no seu perfeito juízo quer estragar as férias para ser mãe/pai?... Quem é tão irresponsável que programa o nascimento dos filhos para os meses de Julho, Agosto ou Setembro estragando o sempre aguardado prémio que são as férias ou, quanto mais não seja, para ter a oportunidade de mostrar em fotografias que se foi  aqui ou acolá, que se está tão bem na vida que se tem dinheiro para aquele destino caro que todos vão não por ser melhor mas porque é caro?...

Ter filhos nos meses de Verão, de Férias, vai contra todas as normas sociais estabelecidas: se quer estar de férias os médicos e enfermeiras também querem. Mais: toda a gente sabe que os meses anteriores de Primavera, servem justamente para se fazerem as dietas anuais para se conseguir o corpo escultural que se quer exibir na praia e fazer inveja a todos os restantes. São estas pequenas vitórias sobre os outros, o saber que se é melhor nalguma coisa, que derrotámos os outros, que nos faz sentir bem na sociedade contemporânea.

Julgo até que a Assembleia da República devia legislar a proibição de fazer sexo reprodutivo no último trimestre do ano, ou seja nos meses de Outubro, Novembro, Dezembro e em paralelo produzir campanhas de divulgação nas televisões, rádios e WhatsApp para a obrigatoriedade de uso de métodos anticoncepcionais nesses meses do ano sob pena de pesadas multas, maiores do que as de reboque por estacionamento indevido.

Às postas



Quando me entoam a cantilena do pôr-do-sol lembro-me logo de perguntar que marca é que patrocina o evento, porque a não ser publicidade paga, para que raio se há-de alardear a morte do dia?... 

Gosto é de auroras, de nascimentos, de actos pioneiros e únicos, engalanados de esperanças, mesmo que depois sejam vãs, mas que nem seja por uma dia nos façam sentir marinheiros de Quinhentos e Seiscentos em busca do desconhecido e enfim, das especiarias a preço mais barato como se fossem promoção de hipermercado. 

O Infante do chapéu grande gostava mais de marinheiros do que de escolas assim como eu gosto de descobrir algo novo em cada dia de sol porque nunca fui criança de chapinhar nas poças de água nem mulher de dançar à chuva, antes mais capaz de me ir encafuar num cinema para ver um Almodóvar.

Passarinhos





Podia a genética ter-me dado problemas nos dentes ou na tiróide, diabetes ou até cabelos brancos mais precoces mas o que essa ditadora me colou bem fundo na cabeça foi a imagem do meu pai.

Ainda hoje não fujo de desejar homens de barbas e aqueles olhos amendoados de cor indefinida, mais brilhantes que uma super lua, fazem-me uivar. Olho-o e sinto-me o sapal de Corroios almejando esse maçarico-de-bico-direito a bicar-me toda a carne e a introduzir-se nas águas em arrancos seguros de quem busca alimento, primeiro rápido e depois, devagarinho. 

E só quero repetir aquele colchão de penas latejante, mais e mais, antes do dia da partida desta ave migratória barbuda. 

Croché



Assim como assim são raros os homens heterossexuais que não nos olham como colchas de renda, lindas para se esparramar sobre uma cama, ou como toalhas de mesa de dias de festa para conferir algum luxo ao acto de comer.
Assim como no tempo das minhas avós era bem visto uma mulher falar francês e tocar piano, sinal que tinha a mentalidade de uma boneca de porcelana, também agora o croché vestido parece indicar um regresso ao passado, de quando os homens mandavam nas mulheres e daí não vinha mal ao mundo como nos mostraram os nossos pais e avós.
Talvez o futuro esteja nesse fio condutor, feito de linha de algodão ou de polipropileno, de fio de pesca, fio dental, fio de cobre ou cordel de embrulho aplicado à roupa de dormir ou de cama, para se ir puxando um a um para não mais ser possível fazer sexo sem preliminares.