Soneto dos piolhos

Que fio de ouro, que cabelo ondulado
piolhos não criou, lêndeas não teve?
que raio de olhos blasonar* se atreve,
que não foi de remelas mal tratado?
Que boca se acha ou que nariz prezado
aonde monco ou escarro nunca esteve?
e de que cristal ou branca neve
não se viu seu besbelho* visitado?
Que papo de mais bela galhardia,
que um dedo está do cu só dividido,
não mijou e regra tem todos os meses?
Pois se amor é tudo merda e porcaria,
e por este monturo* andais perdido,
cago no amor e em vós trezentas vezes.
Composição anónima do séc. XVII In Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Lisboa: Antígona/Frenesi, 3ª edição, 2000
* blasonar = mostrar com alarde, ostentar;vangloriar-se, gabar-se.
* besbelho = ânus
* monturo = lixeira; monte de esterco; acervo de coisas repugnantes
[Imagem gentilmente enviada por IR]

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